A matemática é a mesma em qualquer parte do mundo. Só que aqui tem um pequeno detalhe: na hora de falar os números, a unidade vem antes da dezena. Um exemplo: escreve-se 41, mas se diz 1 e 40. Legal, né? Pois é. Imaginem só o que me aconteceu quando fui levar a bota até a sapataria. Toda prosa, entrei na loja e dei boa tarde ao sapateiro em holandês. “Tô arrasando”, pensei eu, em português. Mostrei as botas, falei que queria trocar a sola, perguntei se era possível. Sim, sim, me disse ele. Tudo isso em holandês. Maravilha! E o preço, quanto seria?, indaguei. Een (1) en viertig (40) euro, respondeu ele. E aí é que foi o busílis. Claro que eu entendi 1,40, né. Já tinha até separado as moedas para pagar, quando me dei conta do erro. Xiiiiii... Ainda bem que eu tinha levado o meu cartão do banco, senão eu ia ficar descalça! Noventa e nove beijos para vocês! Ou nove e noventa? (O crédito da foto é de Gokhan Okur)
A família Veneu-Lumb tem uma nova integrante. Calma, gente, é uma gata. Quer dizer, outra :))) Ela foi chegando, chegando, até que um dia se aninhou no sofá pra nunca mais sair. Houve uma certa controvérsia sobre o sexo do bichano, por conta da cor do pelo, mas agora é certo: Mia é menina. Até então, ela se chamava Maurits. E atendia! Mas enfim, estamos na Holanda, tudo aqui é muito livre de preconceitos, quando o assunto é sexualidade. Vou contar mais sobre a Mia em outros posts. Ela é uma figuraça!
Campanhas publicitárias vão e vêm, mas boas frases ficam. E, de verdade, este post nasceu a partir do título. Durante minhas aulas de holandês, aprendi que todos os compromissos cabem nesta palavra: afspraak. Seja com um amigo, o médico, o dentista, ou até mesmo o afinador de pianos, que vem aqui esta semana, é preciso marcar um afspraak. No curso de holandês, tínhamos de ter um com o vizinho, para treinar a conversação. Só que, no meu caso, havia uma dificuldade extra: não entendo absolutamente nada do que ele diz. Já tentamos trocar uns espelhinhos, colares de contas, chocolates, mas, quando se trata de palavras, o meu desespero é completo. Comentando isso com uma das amigas do coro, ela me fez um dos convites mais gentis que já recebi aqui: ir à casa dela, para tomar um chá. Assim nasceu a oportunidade para o meu primeiro afspraak 100% holandês. Aqui é preciso levar flores, ou cookies, ou chocolate, para a pessoa que a gente vai visitar. Optei pela opção mais light e fui em frente. Cheguei com um lindo buquê – mais o casaco, o guarda-chuva, o sobretudo... Mas isso daria outro post – E foi uma manhã fantástica! Conversamos muito mais do que o previsto no roteiro e chegamos àquele ponto de compreensão em que as palavras já não fazem tanta diferença. Voltei para casa com o dever completo e a alma plena. Trouxe também uma certeza: do primeiro afspraak a gente nunca esquece.
Então você escreveu um documento, preparou tudo e vai imprimir. Quando ele aparece na tela, você se dá conta de que sobra – ou falta – espaço na margem. Na diagramação, quando há mais texto do que o projeto gráfico pode comportar, costuma-se dizer que o texto “sangrou”. Sangrando ou faltando, é preciso um reajuste, senão a página vai sair com danos, diferente do projeto original. Que fazer? Voltar ao arquivo e formatá-lo novamente. Reformatar, como a gente costuma dizer. Seria possível reformatar uma relação? Escolhas erradas, que não podem ser refeitas, podem nos levar a uma impressão inadequada. Com ou sem sangramentos, com espaço a mais ou a menos, daquele jeito original não funciona. Que fazer? Será que existe um modo de corrigir o rumo? Ou aquela impressão está destinada a se perpetuar por todos os dias, horas, momentos...?
Hoje acordei meio “regredida”. Fui escolher as músicas que vou ouvir durante o dia, enquanto trabalho, e só me vinham à mente as minhas favoritas do tempo de criança, da Turma do Balão Mágico, Trem da Alegria... De Ursinho Pimpão a Lindo Balão Azul, passando por He-Man, Thundercats, embarquei uma viagem de volta à infância. A poucos dias de completar 37 anos, fiquei me perguntando se o meu aniversário seria a causa desta vontade tão grande de ouvir as canções que me fizeram tão bem, quando eu era mais nova. Percebi que o que mais me faz falta, da infância, é a inocência original. É o alegrar-se por nada, a simplicidade, a esperança e a certeza de que “só quem luta pelo bem é invencível”. Pude ouvir isto nas canções que escolhi. Tudo ainda está ali. E em mim, também. Voltar ao começo me traz mais inteira. E viva a regressão! :)
Hoje é dia de Maria. Não, não estão exibindo a minissérie da Globo aqui, não! Destinei este dia para limpar e arrumar a casa. Afinal, ela vai "bombar" no final do mês: vamos receber visitas do dia 20 ao dia 18 de abril, oba!! Não sei vocês, mas eu não gosto nada, nada de tarefas domésticas. Mas estou aproveitando para ver o lado filosófico da coisa. Preciso limpar alguns sentimentos, polir muitas intenções, arrumar minha cabeça. Não é muito fácil morar fora do país, longe dos amigos, da família, procurar emprego, enquanto me adapto à vida de casada. Por isso, hoje será um dia de muita limpeza: de casa e de alma. Haja pano de chão! Hehehehe
Imaginem vocês que, daqui da minha janela favorita, vejo grande parte do jardim. E ontem vi algo inusitado. Um pássaro selvagem (não me façam perguntas de prova, do tipo: que pássaro era?, please!) veio pousar nas estruturas que apoiam as roseiras. O pobre tinha as patas amarradas por um fio laranja. Ele ficou horas tentando se livrar daquilo, sem sucesso. Bicava de lá, bicava de cá, e não havia progresso. Até que eu decidi ir lá fora para tentar ajudá-lo. Fui bem devagar, para não assustá-lo. Mas não adiantou. Assim que ele percebeu a minha presença, foi embora, com aquele fio pendurado nas patas. Fiquei pensando que ele tinha voado pra longe de alguém que poderia aliviar o sofrimento dele. Tudo bem, vocês podem me dizer, mas é um pássaro, não um ser humano. E esse é o meu ponto de hoje. Fiquei pensando: quantas vezes nós, ditos racionais, não deixamos alguém nos ajudar? Quantas vezes também fugimos voando – e olha que nem somos passarinho – com nossos fios pendurados? Dói ver um amigo ou alguém precisando de ajuda, mas que quer ficar sozinho. E quando somos nós? Um grande beijo!
Gostaram da história do cisne? Pois tem mais. Os visitantes, desta vez, são um casal de patos. Eles vieram ontem e acabaram de chegar, hoje. Como eu sei quem é o pato, quem é a pata? Ele parece aqueles patinhos de cerâmica que a gente vê nas feiras hippie: pescoço verde, cabeça preta, corpo marrom. Ela é toda rajada de marrom e branco. Ele vai explorar o ambiente, enquanto ela nada no lago. Isso lembra a vocês alguma coisa? Hoje, os dois nadaram juntos. Ficaram juntos por mais tempo, se é que vocês me entendem, mostrando toda a disposição típica da primavera. Agora, não há mais dúvidas: pato é pato, pata é pata! E o amor está no ar!
Já dizia a música do tempo do Ronca neném: “vivo esperando e procurando um trevo no meu jardiiiim”. Hoje de manhã, olhando pela janela, o que eu encontrei foi um... cisne (!) no meu jardim. O bichinho (ou bichão, muito grande!) caminhava tranqüilo e, no seu passo malemolente, foi se dirigindo ao portão. Saiu e foi atravessar a rua, como na piada do “primo” frango. Com um objetivo: chegar até o canal. Só que, no meio do caminho (leia-se estrada, mão dupla), estacou. E, com ele, o trânsito. Os carros todos pararam para esperar o que o cisne ia decidir: entrar no canal ou dar mais um rolezinho. Dúvida cruel... O tempo passava, a fila de veículos crescia, e o bicho nem aí. Olhava um carro, olhava outro, balançava o pescoço e nada. Até que um dos motoristas resolveu ultrapassar o cisne. Com a colaboração dos que vinham em sentido contrário, contornou o bicho e seguiu seu caminho. Depois foi a vez dos que deram a passagem. E o cisne ainda na dúvida. E eu, com uma certeza: certas coisas só acontecem na Holanda...
Em algum lugar do espaço-tempo – para não dizer na terra dos pés-juntos –, um encontro inusitado. Tudo por conta de que muitos brasileiros, da terra de Cabral, vão morar na Holanda, terra de Nassau. A conversa vai ser toda traduzida, para evitar confusões. Mal-entendidos são inevitáveis...
– Cabral, você por aqui? – Pois. E tu, quem és? – Eu sou o Maurício... – De Nassau? – É, ué. Por que o espanto? – Podia ser o da música do Casseta & Planeta... – Casseta & Planeta? O que é isso? – Ah, deixa pra lá. Coisas da minha terra, o Brasil. – Sua terra? Mas você não é português? – Era. Até descobrir o Brasil. Agora me considero um brasileirinho da gema. – Pois é, eu também me sinto assim. Você descobriu, eu invadi. Quer dizer, invadi, não, fui administrar a parte que cabia à Holanda no seu latifúndio. – Isto parece música do Chico Buarque. – E é. Mas até ele se diz de Holanda! Tenho licença para citar a música, oras. Mudando de assunto, você sabia que muitos brasileiros estão descobrindo a Holanda, agora? – Não! – E até vivendo lá. – Como sabes tu de tudo isto? Ainda tens conexões na Companhia das Índias? – Não, agora minha conexão é com o Chefe, aqui em cima. E também consulto os jornais diariamente. Afinal, lá se vão mais de 400 anos do meu trabalho no Brasil. Eu tenho de me atualizar. Você não? – Bom, eu confesso que leio mais a parte de piadas e do que passa na TV. Se me podes atualizar um pouco mais... – Sem problemas! Podemos fazer isso tomando um cafezinho? – Bom, melhor um chá. Afinal, pelo visto, nós vamos é para aquela cafeteria com vista para a Holanda...
Já é manhã aqui na Holanda e o meu dia começou há algumas horas. Olho pela janela, em busca de inspiração. Lá fora, um dia menos chuvoso do que o de ontem, felizmente, mas sem grandes mudanças: o lago onde ficam os peixes continua congelado, o vento continua soprando, a temperatura continua baixa: 0C. O que faz um dia diferente do outro, afinal? A resposta tem duas letras: eu. Ou quatro: você. O que eu posso fazer para que este dia seja diferente de ontem? Para que seja melhor, mais de acordo com aquilo que eu sou – ou quero ser? Preciso largar o trabalho, dar uma guinada, chutar o balde ou o pau da barraca? Talvez. Mas talvez não. Talvez eu precise me renovar, ver o cotidiano de outra maneira. E, dentro dele, não me repetir, se eu não quiser. Dar um bom dia diferente para alguém, mudar de calçada, escolher outro caminho pra chegar ao trabalho... Olhar para aqueles que amo como se os estivesse vendo pela primeira vez. Não haverá, na minha história, e na sua, um dia igual a hoje. Não haverá um momento igual a este. Que já se acabou, enquanto eu escrevia e você lia este post... Vamos lá?
Recebo, do RJ, notícias: nasceu o bebê de uma amiga, faleceu uma senhora muito querida de outra amiga, está doente o marido de mais uma amiga querida. Fico pensando que nascimento e morte também são ritos de passagem. Não para os que nascem e morrem, mas para os que estão ao redor. São momentos de emoções profundas: alegria ou dor, que nos conectam com o que temos de mais sagrado em nós: a nossa vida. Que, como diria o Lenine, não pára. E nos convida a viver de maneira mais intensa, do que simplesmente contando dias e horas. Hoje, quando acordei e vi tudo branquinho de neve, primeiro pensei: “nossa! Mais um dia de neve!” Depois, digerindo as notícias, pensei melhor: “que bom! Um dia único, um momento irrepetível, e está nevando...” Por mais pressa que ou desejos que se tenham, a vida tem seu ritmo. E segue, frágil e majestosa, profunda e brilhante, oferecendo-nos nada mais do que um momento, a cada momento. Cabe a nós fazê-la “infinita, enquanto dure”. Ou não.
Autores como George Orwell já contaram o que pode acontecer quando dá a louca nos bichos, ou nos seres humanos. Stanley Kubrick levou ao cinema a história de Hall, o computador que pensava, e, logo, se rebelou. Na vida real, quem nunca teve um Hall e perdeu muitos ou todos os seus arquivos digitais, que atire o primeiro chip. Até aí, tudo bem. Mas jamais pensei que uma simples máquina de pão poderia fazer a mesma coisa. Shhhh... melhor dizer “aquela maravilhosa máquina de pão”. Vai que ela pode ler, também. Pois estava eu aqui, outro dia desses, preparando um pãozinho. A coisa é simples: você (no caso eu) pega o pacote de mistura para pão, abre, coloca o conteúdo dentro da maravilhosa máquina de pão. Pega água, manteiga e põe lá, dentro deste maravilhoso aparato com que nos brinda a tecnologia. Aperta um botão pra escolher a espessura da casca e outro para começar o trabalho. E aí é só partir pro abraço. Daquela vez, foi um abraço de tamanduá. Ou de urso, já que acho que nem tem tamanduá, aqui. No meio do processo, comecei a sentir um cheiro de queimado. Fui até a cozinha. Quando chego lá, descubro que o cheiro vem da maravilhosa máquina de pão. Abro a tampa e a fumaça se espalha por todo o ambiente – que tem detector de fumaça. Abri todas as janelas, também. E dentro da máquina... Ah, dentro da maravilhosa máquina de pão tinha massa por todos os cantos, cantinhos e cantões. Queimando... Corro para desconectá-la da parede. Puxo a tomada, que se desfaz na minha mão. Consigo tirar o que resta e então a paz se faz na cozinha. Depois de limpar aquela gosma toda, claro! Mas o suspense continua. Será esta uma rebelião de todas as máquinas? E se for, qual será a maravilhosa máquina da vez? Hehehe
Vem da Bélgica uma notícia no mínimo intrigante: após sete anos em estado vegetativo, um paciente foi capaz de se comunicar com seus médicos. Ao alternar imagens mentais – uma significando “sim”, outra, “não” –, respondendo às situações propostas pelos médicos, o rapaz de 22 anos acertou cinco das seis perguntas feitas a ele. Os próprios médicos ficaram surpresos com os resultados. Qual será o limite da vida humana, afinal...
Estava eu hoje pensando sobre o que escrever aqui, quando recebi um email do meu marido. Nele (no email, não no marido :)))), um link superbacana sobre os tamanhos do universo. Das menores partículas às massas mais inimagináveis, há um caminho matemático na escala de 10. Em todas as etapas, exemplos, para a gente ter uma idéia mais clara das proporções. E, em um determinado ponto, encontro a seguinte frase: “We are probably not in the center of the universe”. Estas palavras despertaram em mim uma lembrança muito terna da infância: a música “Brincar de Viver” (é, gente, do Plunct, Plact, Zum): “e não esquecer: ninguém é o centro do universo. Assim é maior o prazer.” Foi o banho de perspectiva de que eu precisava para começar bem o dia. Termino com uma frase do Guilherme Arantes, ainda da mesma música: “como sou feliz, eu quero ver feliz quem andar comigo. Vem!” Um beijo carinhoso!
Para quem quiser ver os tamanhos do universo, aqui está o link: http://uploads.ungrounded.net/525000/525347_scale_of_universe_ng.swf E, para matar as saudades da infância, http://www.youtube.com/watch?v=fO2OMVmF3GU
Revi ontem um programa superinteressante da BBC, sobre a teoria do caos. Pensar que existe um padrão que se repete em estruturas vivas e não-vivas, que a maneira com que se organizam os vasos sanguíneos, as montanhas e os flocos de neve é a mesma ainda me faz perder o fôlego. Esse padrão se repete até o infinito, uma versão natural daquelas bonecas russas, que cabem uma dentro da outra. O apresentador do programa, cientista, usou uma expressão que adorei: os fractais seriam a “impressão digital de Deus”. ‘Viajei’, na hora: metaforicamente falando, seremos todos nós, seres animados e inanimados, pequenas impressões de Deus no mundo, de maneira tão profunda que alcança até o nível fisiológico? Desse Deus que é tão infinito, que se multiplica nas suas várias facetas e nunca se esgota...
P.S.: Obrigada pelos comentários de vcs! Fiquei superanimada! :)
Enquete virtual: alguém já ouviu falar de couve-rábano?E, conhecendo tal hortaliça, teria alguma receita para prepará-la? É, as minhas aventuras pelo mundo mágico da cozinha continuam. A julgar pela variedade de vegetais que nunca vi na vida, em pouco tempo vou trocar “mágico” por “esotérico”. Esse mundo culinário se torna cada vez mais misterioso...
A danada da couve-rábano fica me olhando cada vez que abro a geladeira. Perguntei ao mr. Google o que fazer com ela, e ele me mostrou algumas receitas para saladas. Mas estamos em pleno inverno, aqui. Já procurei receitas em inglês, holandês... Mas aí o problema não é a couve-rábano, é o vocabulário. Socorro! Receitas e respostas para este blog.
Era sua desde sempre. No berço já lhe fazia companhia. Quando ainda não conseguia associar imagens a pensamentos, atentava para as cores emanadas quando a luz incidia sobre ela, variando de acordo com o lado que observava. Na escola, aprendeu que seu brinquedo de cristal era “um cubo”. Nem todos aprendiam.
Caixa ou cubo, parecia mágica. Cada lado mostrava um mundo. Tons de inverno transformavam-se em folhas caintes, outono puro em época de frio sórdido. Bastava saber que era possível trocar de aresta enquanto observava. Nem todos sabiam.
Escolher um lado para ver a dor, outro para as matizes de atitudes. Em qualquer morte, podia ver a alma entregando-se ao céu, feliz fumaça de ouro na tarde até então enlutada. Nem todos viam.
Uns lados pareciam mais fáceis de ver. Neles, mostravam suas insatisfações, dores, cotidianos. Como demorou a descobrir que, ao virar o cubo mágico, lá estavam versões de outros sobre suas histórias! Poucos descobriam. E amou a caixa até a morte. Todos morrem.
Minha melhor amiga é também a pessoa mais diferente de mim que eu conheço. Somos parecidas fisicamente, mas totalmente diferentes em termos do que pensamos e como vivemos. Por exemplo, ela é 100% racional, eu, 100% emocional. Ela gosta de cozinhar, eu, de comer. Eu sou católica, ela não tem religião. Brincamos a respeito, dizendo que somos gêmeas opostas.
Todas essas diferenças, no entanto, nunca foram motivo de discussão ou de desentendimento. Pelo contrário, muitas vezes, antes de tomar alguma decisão, uma consulta a outra, para ter uma perspectiva mais ampla da situação. Se é preciso um pouco mais de razão, falo com ela. Já se é a emoção que faz a diferença naquele momento, ela conversa comigo. Esta amizade tão singular é absolutamente harmônica – apesar de com acordes dissonantes – desde 1992, praticamente todos os dias.
Sempre pensamos sobre como isso pode acontecer, porque, a cada vez que nos falamos, descobrimos mais e mais diferenças, inclusive nas coisas mais simples. Por exemplo, gostamos de empada, mas eu do recheio, e ela da “tampa”. Dia desses, filosofando sobre isso, encontramos a resposta.
Descobrimos que, na nossa amizade, o grande segredo da convivência não é a tampa, muito menos o recheio da empada, mas a azeitona. Uma gosta mais da massa, outra do recheio? Sem dúvida! Isso vai mudar, algum dia? Provavelmente não, já que há quase 20 anos é assim. Mas concordamos em um ponto: a azeitona. Toda empada deveria ter azeitona. Então, hoje em dia, penso que essa é a idéia.
Você discorda de seus pais, irmãos, marido (esposa), namorado(a)? Normal. Ninguém tem de pensar igual, mesmo, e isso não é um problema. Problemas podem aparecer, sim, mas na maneira de conduzir a situação. Porém, lembre-se de que é possível um consenso. Procure a azeitona. Ela está lá. Dentro do recheio, inteira ou em pedaços, mas está lá, dando graça a todas as empadas.
Afinal, o destino do Narciso é o fundo do lago. Se você só gosta de pessoas parecidas com você e só consegue conviver e se relacionar com elas, qual é a graça? Você vai passar a vida tendo acesso apenas aos pontos de vista que já conhece. E, mesmo só procurando gente parecida com você, em algum momento vai haver discordâncias, diferenças. E que bom que seja assim!
Vida é diferença, literalmente! Outro dia, aprendi que o que faz o coração bater é a diferença de concentração e de potencial elétrico entre sódio e potássio nas células. Se ficar tudo igual, o coração pára... Interessante, não?
Procure a azeitona. Ela dá gosto à empada como um todo, seja ela com tampa ou sem. E, além do mais, é muito gostosa! Ou você não gosta de azeitona?
Pois é. Este post vai ser o início de uma nova experiência, para mim: publicar textos não-técnicos e não-jornalísticos, com humor e com muito sentimento. Espero que vcs se divirtam lendo minhas aventuras, desventuras e peripécias na terra dos moinhos. Enquanto isso, eu vou vivendo e escrevendo! Grande abraço! P.S.: Tenho também alguns textos mais "sérios", que vou disponibilizar.